Prorrogação do horário de votação provocou críticas de aliados do presidente americano; dados do TSE mostram que 34,3 mil eleitores votaram após as 17h, mas a Justiça Eleitoral afirma que a medida não alterou o resultado.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras passou a ser acompanhada com atenção nos Estados Unidos. Até a manhã de segunda-feira (26), o presidente americano Donald Trump ainda não havia reconhecido publicamente a vitória do brasileiro, comportamento que contrasta com a rapidez observada em eleições anteriores e que levanta questionamentos sobre os próximos passos da relação diplomática entre os dois países.
Lula venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 51,79% dos votos válidos, aproximadamente 64 milhões de votos, contra 48,21%, cerca de 59 milhões. O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08 de domingo (25).
A ausência de uma manifestação oficial de Washington ocorre em um contexto de divergências políticas entre os dois governos e de críticas de pessoas próximas a Trump à condução do processo eleitoral brasileiro. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o silêncio pode refletir a frustração do presidente americano com a derrota de um aliado político na região. Entretanto, até o momento considerado pelas reportagens, não havia anúncio oficial de que os Estados Unidos deixariam de reconhecer o resultado.
Prorrogação da votação provoca reação de aliados de Trump
Um dos episódios que intensificaram as discussões foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de estender até as 19h o funcionamento das seções eleitorais que ainda estavam abertas às 17h, horário inicialmente previsto para o encerramento da votação.
A medida foi adotada após relatos de dificuldades no transporte público e de longas esperas em cidades como São Paulo e Salvador. As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro recorreram à Justiça para solicitar a ampliação do horário, embora tenham apresentado pedidos com alcances diferentes.
Inicialmente, a campanha de Lula acionou o TSE em razão de problemas no deslocamento de eleitores. Por volta das 16h20, o PT recorreu ao STF para solicitar a extensão da votação por duas horas em todo o país. Já a campanha de Flávio Bolsonaro pediu a ampliação do horário em São Paulo, Paraná e Santa Catarina, alegando que as condições climáticas prejudicaram o comparecimento dos eleitores.
A determinação de Zanin, porém, gerou um desafio operacional: milhares de urnas já haviam sido encerradas quando a decisão foi comunicada. Posteriormente, o TSE esclareceu que somente as seções ainda em funcionamento deveriam permanecer abertas, sem reabertura dos equipamentos já fechados.
A decisão passou a ser criticada por integrantes da direita brasileira e por pessoas ligadas ao presidente americano. Martin De Luca, advogado que representa a Trump Media & Technology Group e a plataforma Rumble em processos no STF, publicou críticas à medida e levantou questionamentos sobre a legitimidade do resultado.
Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, compartilhou uma publicação do advogado na rede social X e questionou o tratamento que a imprensa americana daria a uma decisão semelhante caso fosse tomada por um governo conservador.
As manifestações ampliaram a repercussão internacional do episódio. No entanto, as críticas feitas por aliados de Trump não constituem, por si só, evidência de irregularidades eleitorais nem representam uma decisão oficial do governo americano sobre o resultado brasileiro.
Dados do TSE mostram quantos eleitores votaram após as 17h
Um levantamento da Setup News, parceira da CNN Brasil, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral, identificou que 34.330 eleitores votaram após as 17h no segundo turno de 2026.
Desse total, 29.001 votos foram registrados entre 17h e 17h05. Somente no primeiro minuto após o horário inicialmente previsto para o encerramento, foram contabilizados 13.961 votos.
Depois das 17h05, outros 5.329 votos foram registrados até as 19h06, horário do último voto contabilizado no levantamento. A concentração nos primeiros cinco minutos indica que parte dos eleitores pode ter chegado aos locais de votação antes das 17h e permanecido nas filas.
Os números também ajudam a dimensionar a diferença entre os dois turnos. No primeiro turno, 3.724.999 eleitores votaram após as 17h. Naquela ocasião, não houve uma prorrogação geral do horário, e os votos registrados depois desse momento correspondiam a pessoas que ainda estavam na fila, com direito de votar conforme as regras eleitorais.
Após a repercussão da decisão judicial, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que a extensão do horário não comprometeu o resultado das eleições. Segundo ele, não houve alteração no resultado decorrente da medida, e a Justiça Eleitoral mantinha confiança no processo.
Assim, embora a prorrogação tenha se tornado um tema de disputa política, os dados divulgados não demonstram, por si só, que tenha ocorrido fraude ou manipulação dos resultados.
Silêncio americano interrompe padrão observado em eleições anteriores
A demora de Trump em se manifestar também chama a atenção por se afastar do comportamento adotado por diferentes administrações americanas em eleições presidenciais brasileiras anteriores.
Em 2002, George W. Bush telefonou para Lula aproximadamente um dia após a eleição. Em 2014, Barack Obama parabenizou Dilma Rousseff no dia seguinte à votação. Em 2018, Trump conversou por telefone com Jair Bolsonaro na noite do segundo turno. Já em 2022, Joe Biden felicitou Lula e classificou a eleição como livre, justa e confiável antes mesmo de Bolsonaro reconhecer formalmente a derrota.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a ausência de uma manifestação semelhante em 2026 pode estar relacionada ao cenário político regional. Nos últimos anos, Trump acompanhou a ascensão de governos de direita na América Latina e demonstrou proximidade com integrantes da família Bolsonaro.
O pesquisador Christopher Sabatini, do centro de estudos Chatham House, avalia que o silêncio pode representar dificuldade de Trump em admitir a derrota política de um aliado. Ele também considera que o reconhecimento internacional da vitória de Lula por outros governos aumenta a pressão sobre Washington.
O pesquisador Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas, por sua vez, destaca o caráter pragmático que pode orientar a relação entre os dois países. Apesar das divergências ideológicas, Brasil e Estados Unidos mantêm interesses econômicos relevantes, o que favorece a possibilidade de negociação.
A análise também considera que uma eventual aceitação do resultado por Trump poderia reduzir o espaço para questionamentos de setores ligados ao bolsonarismo. Por outro lado, a manutenção do silêncio ou uma manifestação crítica poderia alimentar disputas políticas internas e gerar desgaste diplomático.
Eleições legislativas americanas podem influenciar o cenário
Outro elemento considerado na análise publicada pela CNN Brasil é a eleição legislativa dos Estados Unidos, marcada para 3 de novembro de 2026.
O cenário de possíveis perdas republicanas na Câmara dos Representantes poderia ampliar a pressão política sobre Trump. Caso os democratas conquistem maior influência nas comissões parlamentares, poderão intensificar investigações e a fiscalização de decisões do governo americano.
Na avaliação de Lourival Sant’Anna, esse contexto pode incentivar Trump a reforçar argumentos relacionados à segurança nacional, estratégia que o presidente tem utilizado em debates sobre tarifas comerciais, imigração e ações militares.
A análise aponta que a divergência entre Washington e Brasília sobre a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas também pode contribuir para o desgaste bilateral. O governo americano anunciou a designação desses grupos em maio, enquanto o governo brasileiro rejeita esse enquadramento.
Segundo o cenário projetado pelo analista, a questão poderia ser utilizada por Washington para justificar maior pressão política ou operações de segurança na região, sem que isso necessariamente significasse uma invasão do território brasileiro. Uma iniciativa desse tipo, contudo, poderia provocar uma reação do governo Lula e ampliar as tensões entre os países.
Essas possibilidades fazem parte de uma análise sobre os riscos diplomáticos, e não de medidas oficialmente anunciadas por Trump em resposta à eleição brasileira.
Relação entre os dois países dependerá dos próximos movimentos
Apesar das divergências, Brasil e Estados Unidos possuem interesses comerciais e empresariais que podem funcionar como incentivo para a manutenção de um relacionamento funcional. Empresas com operações nos dois mercados, como a JBS, têm interesse na estabilidade das relações econômicas e podem contribuir para evitar uma escalada de conflitos.
Especialistas também avaliam que Lula poderá buscar maior protagonismo internacional, tentando posicionar o Brasil como um interlocutor capaz de dialogar com diferentes forças políticas em um cenário mundial marcado por disputas geopolíticas.
O próximo posicionamento da Casa Branca será importante para esclarecer a postura de Washington diante do resultado brasileiro. Até que haja uma manifestação oficial, entretanto, não é possível afirmar que Trump rejeitará a reeleição de Lula.
O caso reúne, portanto, três questões centrais: a repercussão política da prorrogação do horário de votação, a ausência de um reconhecimento público imediato por parte do presidente americano e os possíveis efeitos desse cenário sobre a diplomacia entre Brasil e Estados Unidos.
Embora as críticas de aliados de Trump tenham ampliado os questionamentos nas redes sociais, os dados divulgados pelo TSE e as declarações da Justiça Eleitoral devem ser considerados na avaliação do episódio. Os próximos pronunciamentos oficiais serão decisivos para determinar se o silêncio americano representa apenas uma demora diplomática ou se dará lugar a um novo foco de tensão entre os governos.
Fonte: CNN


