O governo do presidente Donald Trump iniciou uma nova estratégia para acelerar deportações em massa nos Estados Unidos: audiências coletivas gigantescas nos tribunais de imigração, apelidadas de “mega masters”. A medida vem sendo implementada pelo Departamento de Justiça americano e já provoca forte reação de advogados, entidades de imigração e defensores de direitos civis.
Segundo informações divulgadas inicialmente pela emissora pública OPB e pela NPR, os tribunais de imigração passaram a reunir mais de 100 imigrantes em uma única audiência preliminar, algo muito acima do padrão anterior, que costumava reunir entre 20 e 30 pessoas. (opb)
Essas audiências são conhecidas como “master calendar hearings”, uma espécie de primeira apresentação do imigrante diante do juiz para discutir o andamento do processo migratório. Agora, no entanto, elas estão sendo usadas em escala muito maior para acelerar decisões de remoção e reduzir o enorme acúmulo de casos no sistema.
Estratégia mira principalmente imigrantes sem advogado
Advogados de imigração afirmam que os novos procedimentos estão atingindo principalmente pessoas sem representação legal. Segundo especialistas ouvidos pela imprensa americana, muitos imigrantes estão tendo datas alteradas sem aviso adequado, o que aumenta drasticamente o risco de ausência na audiência.
Nos EUA, quando o imigrante não comparece ao tribunal, o juiz pode emitir automaticamente uma ordem de deportação “in absentia”, autorizando a remoção imediata do país. (opb)
A Associação Americana de Advogados de Imigração (AILA) demonstrou preocupação com a possibilidade de o novo sistema limitar ainda mais o devido processo legal. Advogados relatam que muitos tribunais sequer possuem estrutura física suficiente para acomodar tantas pessoas ao mesmo tempo.
Há também relatos de pessoas que originalmente tinham audiências marcadas apenas para 2027, 2028 ou até 2029, mas que passaram a receber novas datas antecipadas repentinamente. (opb)
Governo Trump quer deportar 1 milhão de pessoas por ano
A ofensiva faz parte do plano migratório endurecido da Casa Branca. O governo Trump estabeleceu como meta ampliar drasticamente o número de deportações anuais, buscando ultrapassar a marca de 1 milhão de remoções por ano.
Ao mesmo tempo, o governo acusa os tribunais de imigração de serem lentos e de contribuírem para o enorme acúmulo de processos migratórios. Atualmente, o sistema americano possui milhões de casos pendentes aguardando decisão. (CBS News)
Como resposta, o Departamento de Justiça iniciou a maior contratação de juízes de imigração da história recente do país. Somente na última semana, 77 novos juízes permanentes e cinco juízes temporários ligados ao setor militar foram incorporados ao sistema. (CBS News)
Demissões de juízes e denúncias de pressão política
A expansão do quadro de magistrados ocorre após uma onda de demissões e saídas voluntárias dentro dos tribunais migratórios. Diversos juízes considerados mais favoráveis a imigrantes foram desligados ou deixaram seus cargos nos últimos meses.
Um dos casos mais emblemáticos aconteceu na Califórnia. O tradicional tribunal de imigração de San Francisco foi fechado após a redução drástica do número de juízes. O local tinha 21 magistrados antes do início do atual governo Trump e terminou com apenas dois antes do encerramento das atividades. (AP News)
Grande parte dos processos foi transferida para outras cidades, aumentando ainda mais o congestionamento do sistema judicial migratório.
Além disso, o Departamento de Justiça passou a pressionar juízes considerados “lentos” nas decisões, reforçando o discurso de endurecimento contra imigração irregular. (KSAT)
Críticas apontam riscos ao devido processo legal
Organizações de direitos humanos e especialistas em imigração alertam que a nova política pode comprometer garantias básicas de defesa.
Críticos afirmam que muitos imigrantes chegam aos tribunais sem orientação jurídica, sem intérprete adequado e sem tempo suficiente para preparar documentos e pedidos de asilo.
Também há temor de que as audiências em massa aumentem erros processuais e deportações automáticas de pessoas que poderiam ter direito de permanecer legalmente nos Estados Unidos.
Enquanto isso, o governo Trump defende as mudanças como necessárias para restaurar o controle migratório e reduzir o acúmulo histórico de processos.
Novas medidas migratórias aumentam tensão nos EUA
As “mega audiências” surgem em meio a uma série de medidas mais rígidas adotadas pela atual administração americana.
Nos últimos meses, o governo também anunciou:
- endurecimento das regras para obtenção de Green Card;
- ampliação das ações do ICE;
- aumento das detenções em tribunais;
- expansão do uso de advogados militares em cortes migratórias;
- aceleração de processos de deportação;
- revisão de políticas de asilo.
Especialistas acreditam que a tendência é de aumento das disputas judiciais envolvendo imigração ao longo de 2026, principalmente diante das denúncias de violações de direitos e limitações ao devido processo legal.
A nova política já começa a gerar preocupação entre comunidades imigrantes em várias regiões dos Estados Unidos, especialmente entre brasileiros, latinos e africanos que aguardam decisões migratórias nos tribunais americanos.

