Investigação aponta que grupo teria organizado até 20 uniões fictícias por ano em Massachusetts para facilitar a obtenção de residência permanente por imigrantes; brasileiros aparecem entre os envolvidos nos casamentos investigados.
Seis pessoas foram acusadas pela Justiça federal dos Estados Unidos de participar de um esquema de casamentos fraudulentos em Massachusetts. Segundo os investigadores, a operação teria funcionado por mais de uma década, movimentado milhões de dólares e facilitado pedidos de benefícios migratórios por estrangeiros em situação irregular no país.
O anúncio das acusações foi feito em 21 de outubro de 2026 pelo escritório da Procuradoria dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts. De acordo com as autoridades, o grupo organizava casamentos de fachada entre cidadãos norte-americanos e imigrantes que buscavam obter residência permanente por meio do casamento.
Esquema teria movimentado mais de US$ 6 milhões
De acordo com os documentos judiciais, Jennifer Gonzalez, de 43 anos, residente em Fall River, é apontada como a principal responsável pela operação. Ela teria intermediado as uniões e cobrado entre US$ 38 mil e US$ 40 mil por casamento.
A estimativa apresentada pelas autoridades é de que o esquema organizasse entre 18 e 20 casamentos fraudulentos por ano. Ao longo de aproximadamente dez anos, a atividade teria gerado mais de US$ 6 milhões em receitas.
Segundo a investigação, Gonzalez teria utilizado parte dos recursos para investir em imóveis e negócios na República Dominicana. As autoridades também afirmam que ela orientava os clientes sobre como construir uma aparência de relacionamento legítimo para apresentar às autoridades migratórias.
Como funcionaria a fraude migratória
A investigação aponta que os clientes pagavam para se casar com cidadãos norte-americanos que participariam das uniões sem manter um relacionamento conjugal genuíno.
Conforme os documentos do processo, os participantes recebiam pagamentos para realizar os casamentos e colaborar com a produção de materiais que seriam utilizados nos pedidos de imigração. Entre as práticas descritas estão fotografias dos casais, registros de encontros sociais e a criação de elementos destinados a dar credibilidade às relações.
Os investigadores também apontam que os envolvidos recebiam orientações para estabelecer contas bancárias conjuntas, contratar seguros de vida e produzir outros registros que pudessem ser apresentados como evidências de uma vida conjugal compartilhada.
Em um dos episódios relatados, uma pessoa que colaborava com a investigação teria sido orientada a assinar um contrato disfarçado de empréstimo. Segundo a acusação, o documento foi estruturado dessa maneira para ocultar a finalidade real do acordo.
Os registros também mencionam pagamentos mensais de aproximadamente US$ 500 ao cônjuge de fachada ou a alguém próximo a ele, como parte dos acordos investigados.
Brasileiros aparecem entre os casos investigados
Cidadãos brasileiros estão entre os imigrantes mencionados na investigação. Reportagens sobre os documentos judiciais relatam que alguns teriam recorrido ao esquema para tentar regularizar sua situação migratória nos Estados Unidos.
Um brasileiro que teria participado de um dos casamentos procurou as autoridades e colaborou com os investigadores. Posteriormente, outro participante colaborou com a apuração, permitindo que agentes acompanhassem conversas e negociações relacionadas à suposta operação.
Os registros também descrevem casamentos envolvendo brasileiras e brasileiros que teriam sido organizados pela rede em diferentes momentos. Fotografias das cerimônias e de encontros dos casais teriam sido produzidas para reforçar a aparência de relacionamentos legítimos.
Ainda não está claro quantos imigrantes conseguiram obter residência permanente ou cidadania por meio dos casamentos investigados. Segundo as autoridades, a apuração permanece em andamento.
Seis pessoas foram formalmente acusadas
Além de Jennifer Gonzalez, foram denunciados Erica Daniels, de 29 anos; Cherice Alejandro, de 39; Amara Pugh, de 31; Jessica Tavares, de 31; e Jaylin Hill, de 26.
Conforme a Procuradoria federal, Daniels, Alejandro, Tavares e Hill teriam participado de um ou mais casamentos de fachada. Pugh é apontada como responsável por tarefas administrativas relacionadas à operação.
Cinco dos acusados foram presos em 21 de outubro. Hill já estava cumprindo uma pena estadual relacionada a um crime envolvendo arma de fogo.
As acusações incluem fraude matrimonial, conspiração para cometer fraude matrimonial, favorecimento da permanência de estrangeiros em situação migratória irregular e conspiração para esse fim. Caso condenados, os envolvidos poderão enfrentar penas de prisão e multas, conforme a legislação aplicável a cada acusação.
Investigação também aponta suspeitas envolvendo benefícios sociais
Os documentos judiciais ainda apontam possíveis irregularidades em pedidos de benefícios alimentares do programa norte-americano Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP).
Segundo os investigadores, alguns dos envolvidos teriam omitido informações sobre seus casamentos em solicitações de assistência. Gonzalez também é acusada de ter recebido mais de US$ 120 mil em benefícios do programa enquanto supostamente administrava o esquema.
As autoridades afirmam que parte dos recursos obtidos com a operação teria sido direcionada à aquisição de imóveis e investimentos no exterior. Essas suspeitas integram a apuração e ainda precisam ser examinadas no processo judicial.
Caso segue sob investigação
As autoridades federais afirmam que a investigação continua e que novas informações poderão surgir durante o andamento do processo.
Nos Estados Unidos, o casamento com um cidadão norte-americano pode permitir que o cônjuge estrangeiro solicite benefícios migratórios, desde que cumpra os requisitos legais. Entretanto, a utilização deliberada de uma união fictícia para obter vantagens migratórias pode configurar fraude e resultar em consequências criminais e migratórias.
A acusação formal não significa que os denunciados tenham sido considerados culpados. Todos são presumidos inocentes até que a culpa seja comprovada judicialmente, conforme os procedimentos legais.
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